domingo, 21 de novembro de 2010

Arte não-autorizada

Pouco mais de um mês atrás, a prefeitura da cidade de São Paulo, juntamente com a Polícia Militar, decidiu que passariam a ser proibidas manifestações musicais nas ruas-especialmente na Av. Paulista- que tivessem "qualquer tipo de exploração comercial."
Vou começar meu post com um vídeo:




Louis Armstrong, de talento indiscutível, a "personificação do jazz", começou sua carreira musical tocando nas ruas de New Orleans. Ele e muitos outros que conseguem fazer da arte o seu ganha-pão.
Agora contarei algumas historinhas pessoais:
Alguns meses atrás, tive a oportunidade de visitar a cidade de Paris. Conheci lugares maravilhosos, construções gegantescas e tudo aquilo o que todo mundo sabe que existe na cidade-luz. Mas uma das cenas mais encantadoras que vi segue abaixo:

Arte na Torre Eiffel, Paris, julho de 2010.
Nesse dia, vi pela primeira vez as ruas de um país que não fosse o meu, subi na torre eiffel, comi um crepe cheio de queijo, mas a primeira coisa que contei para o meu namorado quando o liguei foi que vi um menino tocando gaita de fole no pé da Torre Eiffel e achei aquilo lindo.
O euro que eu joguei dentro da maleta desse moço foi um dos mais bem gastos dessa semana toda. Ele era muito bom, e tocava o instrumento com uma paixão que se vê em poucas pessoas nessa vida.

Vi outros músicos em muitos outros lugares na cidade. Tocando o tema de "O Poderoso Chefão", La Boheme, até Garota de Ipanema. Dentro dos metrôs e trens, ao lado de monumentos históricos, em calçadas quaisquer. Sem conflitos, todos sorrindo e recebendo sorrisos.

Sentimento semelhante a esse eu tinha quando passava nos meus fins de tarde na av. Paulista. Terça-feira, seis da tarde, as pessoas poderiam sair das suas rotinas cansativas escutando acordeonistas, violinistas, guitarristas, e usar seu salário ganho durante o dia para que pudessem relaxar e ajudar os outros. Os musicos de rua não insistem por esse dinheiro, eles ganham porque as pessoas sentem que merecem.

Pergunto a vocês, prefeito e policiais militares da cidade de São Paulo: vocês não acham que eles merecem?
Considerando que o que eles fazem são "eventos", do que mais, além de ter talento, eles precisam para ganhar uma autorização?



sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Preconceito


“Você é muito nova”, dizia, “não entende as coisas complexas da vida”, acariciava seu couro cabeludo, cheiro de maçã verde, “na sua idade, ninguém sabe o que é amor”. Lágrimas nem sempre querem carícias.
Mas você amava. Era impossível que não. Doía, sangrava, e ao mesmo tempo era suave, belíssimo, infinito. (Por que não chamar de infinito algo que você não quer que acabe?)
“Tudo bem, você tem muito para viver”, insistia, e agora não entendia porque você tão cedo parara de chorar e olhava fixamente para as pedras (cinzacinzacinzavermelhacinzafolha). “Você quer ficar sozinha?”
Não queria ficar sozinha, mas estava na companhia errada. Disse que sim, ou só balançou a Cabeça de modo que se compreendeu que sim. Talvez nada disso.
Quem foi que disse que para sentir é necessário ter vivido muito tempo? Intensidade não é sinônimo de vivência, apesar de terminar com idade. Humanidade termina com idade. Os sentimentos, principalmente os bons, não possuem preconceitos. As pessoas, principalmente as não muito boas, essas sim.
Não que seu conselheiro não fosse uma pessoa boa, ele “quer sempre seu bem”. Mas existem coisas que estão dentro de nós, lá dentro mesmo, e os outros não precisam tentar enxergar ou entender. Qual é o ponto? A essência de cada um está no que ninguém vê, ninguém ouve, ninguém sente, ninguém sabe, ninguém nada. E o amor também.
Amava. Amava porque amor é cor, é som, é cheiro, luz, vento, é imortal e morre. E vive. E morre. E volta. As pessoas nunca acreditam amar sem amar de verdade. Elas podem até pensar, ou dizer, mas nunca acreditar.

Paula Zogbi Possari

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Reação


Meu coração dói, meus olhos sorriem e minha boca cala:
Estou lendo seus versos
Meu coração pula, meus olhos se inquietam e minha boca saliva:
Estou ouvindo seus versos
Meu coração cria asas, meus olhos fechados e minha boca se abre:
Estou sonhando seus versos.
Meu coração pára, meus olhos fixos e minha boca seca:
Estou sentindo seus versos.


Meu corpo agora está imóvel e triste. Não me lembro de seus versos.

Paula Zogbi Possari

domingo, 5 de setembro de 2010

Domingo (ou não é crime nem pecado)

Hoje estou desinteressante.
Minto, desinteressada.
Realmente não importa o que você diga ou faça, não vai causar a mínima reação em mim.
(...)Desculpe se você tem muito a dizer.
(...)Não, nem sobre isso.
Não adianta, todas as partes do meu cérebro- e do meu corpo- estão terrivelmente ocupadas em ficar completamente imóveis.
(Terrivelmente? Isso não é nada terrível, elas têm absoluto direito de se ocupar com isso)
Não é preguiça, nem cansaço, tampouco depressão.
Vou lá saber o que é? Não vai mudar a vida de ninguém.
Aliás, estou me esforçando muito mais do que deveria para te explicar isso.
(..)Ok, então, muito mais do que gostaria.
Por iço vol escrever erado.
Pronto, bem melhor assim, pra que pensar em português hoge?
Minha cama está muito vazia.

Paula Zogbi Possari

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Poesia imatura

Eu nunca deveria ter posto um filho no mundo para abandoná-lo assim, sem pensar.
Miri, eu voltei! Você ainda me ama?

Do outro lado da cidade
Uma borboleta secou,
Nenhuma nuvem surgiu,
Aquela pele rachou.
Mas quem precisa de umidade
Quando a tua saudade
Não deixa secarem meus olhos?



Paula Zogbi Possari

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Acúmulo

Hoje minha irmã disse para o meu antigo professor [do fundamental I] de música-vulgo flauta- que eu estava com saudades. Não tinha parado pra pensar nisso, mas é estranho como hoje eu sinto muito menos, nunca mais, falta desse meu colégio do que antes. Isso é comum, mas me inquieta.
Conforme o tempo passa, enquanto as diferentes Saudades vão se acumulando, acabei esquecendo de sentir as Saudades [maiúsculo mesmo] de certas coisas- Saudades que merecem ser sentidas- para sentir outras, que também merecem, mas não necessariamente merecem mais.
Por exemplo, por um vago e ágil instante, parei de sentir a Saudade de escrever aqui no miri. Não sei se foi o layout torto, que eu não sei arrumar e quem sabe não arruma, se é porque só sobramos eu e o Fabinho [mal-e-mal ambos] dentre todos aqueles que foram tão empolgados ao seu nascimento, se foi o vestibular, e depois o nervosismo, e depois a euforia...
O que eu sei é que me sinto injusta. Como pude deixar de sentir Saudades- não só essa- que já me consumiram tanto, que já derramaram tantas lágrimas sinceras em tantos ombros... saudosos?
O que penso é o seguinte: a saudade pode deixar de torturar e machucar, isso é natural. O não natural é deixar de senti-la. Não importa que elas sejam muitas, cada vez mais, ou que você tenha menos tempo para se dedicar a elas, nunca esqueça suas Saudades, elas fazem parte de você e merecem viver.

Paula Zogbi Possari

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Election Night 2044

Elagabalus finally died. His decrepitude sang the complexion of a punished man, though, the shimmering eyes, statically wide open, denounced the one who had been the last one to live on the surface. His mourn was a tremendous failure, there was only his nephew K, who was, by that moment, the older human in life at the age of twenty-four. K was the first offspring of the Stronghold.
By the year of 2010, the world fell into a great depression, the economy dropped and human boasting attitude overwhelmed nature, the environment got muddy. The world has got itself jammed in bituminous disgrace. Elagabalus was the last man to have seen the sun and the moon; by the year of 2044, all humanity lived underground in a world built out of concrete. When Elagabalus died, the reminiscences of the old world died together.
The people of the Stronghold had no identity. As they were a compendium of what once was a global diverse community, they did not share ethnicity, religions or even language. For this, they needed a leader able to conceal so distinctive backgrounds. Elagabalus was a good one, due to his exotic vividness and unusual tan. The human intellect regressed to a bestial level and they would choose their leaders by judging their beauty. That mournful night they would have to call a new election.
The Election Night 2044 was frustrating. None of the candidates has ever had a sunbath. Those diaphanous puppets of Hades were nothing but flesh and bones. Not even a spot of melanin. One could see melancholy frolicking through those empty bodies. How did the world could reach that path? There was nothing, not even beauty. Humanity was lost. Nature was harshly subverted. In 2044, nobody won the elections.


(minha redação para commonapp para a Tufts University.)

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Lá si dó / nada é autobiográfico

Onze meses antes.

Muita chuva, porque chuva é poético. Menos [poético] que a primavera e muito mais que o sol- desde que sem guarda-chuva.
Uma-hora-e-meia pós-meia-noite:
A noite para um, madrugada para a outra.
Ele ouvia "she's only happy in the sun", ela, "I'm only happy when it rains".
Ela com fones de ouvido, ele não se importando com os vizinhos- a não ser que o incomodassem.
Ele contamplava a lua, ela sonhava com as estrelas;
Mas essa não é uma história de antíteses, porque ambos preferiam a noite. Porque precediam manhãs de sol, sem iaiá nem ioiô.
...
E a noite só não os uniu, porque já eram um; mas nunca seria capaz de desuní-los, apesar de previsível que os separasse um dia (...uma noite).

Que ele prefira as ondas, as tempestades; mas ela a calmaria, que ele diga "sozinho", ela "chega de saudade"; se um for Chico Science e a outra Chico Buarque...
Que importa? Ques importam?
Nem ses.

Só importam onze meses depois. E nunca para ambos.


Paula Zogbi Possari

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Quente demais para sopa.

Carboidratos demais;
Açúcar demais;
Barulho, roupas, cérebro

De mais.

Pesado demais;
Arcaico em demasia;
Patinetes, férias, outono

De menos...


Paula Zogbi Possari

domingo, 29 de novembro de 2009

Árvore de Natal.

Ontem cheguei no meu prédio e os dois elevadores estavam no décimo quinto. Para esperar, sentei-me no hall. Em azul e vermelho, a árvore de Natal piscava aos meus olhos. Engraçado, que sensação. Havia anos que eu não parava para contemplar uma árvore de Natal. Aquela que representava paz, desejo, mistério, hoje em dia tão banalizada no cotidiano, cheguei até a reclamar do dinheiro que a síndica gastava com esses enfeites. Estou empedernindo. Não há mais tempo de contemplar. Quando era uma miúdo, sabia de cor cada ponto da costura da estampa dos cobertores de casa, sabia acompanhar todas as linhas do desenho no pano de chão do banheiro. Podia exceder os limites da conta de água por gastar tempo demais observando a trajetória de cada gota d'água no box. Quando estamos crescendo, é importante que observemos para aprender. É assim que assimilamos o mundo. Mas quando adultos, não sei que desgraçante pedância nos faz ignorar. É por isso que quando grandes, paramos de aprender, ficamos secos, grossos, perdemos a nossa humanidade. Quando paramos de observar, de contemplar. Velocidade e compromisso, existem coisas muito mais relevantes que engolem a nossa capacidade de aprender. Daí o elevador chegou e eu tive de correr. Mas isso foi sincero. Quis chorar em frente àquela árvore.