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segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Reação


Meu coração dói, meus olhos sorriem e minha boca cala:
Estou lendo seus versos
Meu coração pula, meus olhos se inquietam e minha boca saliva:
Estou ouvindo seus versos
Meu coração cria asas, meus olhos fechados e minha boca se abre:
Estou sonhando seus versos.
Meu coração pára, meus olhos fixos e minha boca seca:
Estou sentindo seus versos.


Meu corpo agora está imóvel e triste. Não me lembro de seus versos.

Paula Zogbi Possari

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Poesia imatura

Eu nunca deveria ter posto um filho no mundo para abandoná-lo assim, sem pensar.
Miri, eu voltei! Você ainda me ama?

Do outro lado da cidade
Uma borboleta secou,
Nenhuma nuvem surgiu,
Aquela pele rachou.
Mas quem precisa de umidade
Quando a tua saudade
Não deixa secarem meus olhos?



Paula Zogbi Possari

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Election Night 2044

Elagabalus finally died. His decrepitude sang the complexion of a punished man, though, the shimmering eyes, statically wide open, denounced the one who had been the last one to live on the surface. His mourn was a tremendous failure, there was only his nephew K, who was, by that moment, the older human in life at the age of twenty-four. K was the first offspring of the Stronghold.
By the year of 2010, the world fell into a great depression, the economy dropped and human boasting attitude overwhelmed nature, the environment got muddy. The world has got itself jammed in bituminous disgrace. Elagabalus was the last man to have seen the sun and the moon; by the year of 2044, all humanity lived underground in a world built out of concrete. When Elagabalus died, the reminiscences of the old world died together.
The people of the Stronghold had no identity. As they were a compendium of what once was a global diverse community, they did not share ethnicity, religions or even language. For this, they needed a leader able to conceal so distinctive backgrounds. Elagabalus was a good one, due to his exotic vividness and unusual tan. The human intellect regressed to a bestial level and they would choose their leaders by judging their beauty. That mournful night they would have to call a new election.
The Election Night 2044 was frustrating. None of the candidates has ever had a sunbath. Those diaphanous puppets of Hades were nothing but flesh and bones. Not even a spot of melanin. One could see melancholy frolicking through those empty bodies. How did the world could reach that path? There was nothing, not even beauty. Humanity was lost. Nature was harshly subverted. In 2044, nobody won the elections.


(minha redação para commonapp para a Tufts University.)

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Lá si dó / nada é autobiográfico

Onze meses antes.

Muita chuva, porque chuva é poético. Menos [poético] que a primavera e muito mais que o sol- desde que sem guarda-chuva.
Uma-hora-e-meia pós-meia-noite:
A noite para um, madrugada para a outra.
Ele ouvia "she's only happy in the sun", ela, "I'm only happy when it rains".
Ela com fones de ouvido, ele não se importando com os vizinhos- a não ser que o incomodassem.
Ele contamplava a lua, ela sonhava com as estrelas;
Mas essa não é uma história de antíteses, porque ambos preferiam a noite. Porque precediam manhãs de sol, sem iaiá nem ioiô.
...
E a noite só não os uniu, porque já eram um; mas nunca seria capaz de desuní-los, apesar de previsível que os separasse um dia (...uma noite).

Que ele prefira as ondas, as tempestades; mas ela a calmaria, que ele diga "sozinho", ela "chega de saudade"; se um for Chico Science e a outra Chico Buarque...
Que importa? Ques importam?
Nem ses.

Só importam onze meses depois. E nunca para ambos.


Paula Zogbi Possari

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Quente demais para sopa.

Carboidratos demais;
Açúcar demais;
Barulho, roupas, cérebro

De mais.

Pesado demais;
Arcaico em demasia;
Patinetes, férias, outono

De menos...


Paula Zogbi Possari

sábado, 3 de janeiro de 2009

Agora ou amanhã

Por que aqui onde eu moro é um tanto sei lá, misturado com um pouco de num sei, com um leve toque de deixa pra lá? Se tudo mundo já parou pra pensar, eu passo a minha vez e vou falar sobre o céu. Mas o céu está tão longe, se é que realmente existe né?! Porque olhar pra cima e dizer que é o céu e olhar pra baixo e dizer que é o chão é muito fácil. É muito bom tomar gosto por perguntar tudo que você não entende, o ruim é quando você não quer entender... O que mais me revolta agora é não dominar nenhum assunto plenamente para poder ser uma fonte de informação ou sequer um cara interessante.
Mas pelo menos hoje, porque amanhã não serei eu, vou abrir bem meus olhos de forma assustadora e dizer: estou farto! Mas de onde vem essa rebeldia sem causa de hoje? Talvez por meus amigos, talvez pela questão do céu mesmo, ou ainda (provavelmente) por tudo estar tão certo e sem abertura para escrever um documento de protesto. Na verdade há um motivo, mas nada novo. Eu que sempre fui contra a exatidão, a matemática, estou freqüentemente caindo em definições. O que está acontecendo?? Chamem o garçom!
Em suma, não pare pra pensar no que você sentia, nem no dia seguinte, nem no nunca. De que vale aprender com os erros se inventaram a sorte? Os lápis não correm em riscos em vão. Pra que destino? Cada noite a gente vai achar a pessoa certa. Pra que frases grandes? Se todas as atenções fossem voltadas para as pequenas alegrias. Não é porque o leite acabou que ficaremos sem o bolo de microondas! É só a gente não gastar tudo agora. Aha! Viu! Já estava pensando no futuro. Ninguém pára pra pensar no agora porque o agora já passou. E o que virá agora? Desisto.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Condenação

Eu não durmo para ser poeta
Porque passo as noites pensando
Em como mudar o mundo
Respeitando os pobres

Eu faço sexo sem camisinha para ser poeta
Porque me cansam as rimas planas
E só nos corpos encontro a sinuosidade
Que preciso para te comover

Eu fumo para ser poeta
Pois os boêmios memoráveis
Além de sairem bem nas fotos
Não levavam uma vida de santo

Eu bebo para ser poeta
Pois por aguentar a vida
E elevá-la a tal complexidade
Poeta bom é poeta morto!

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Je me souviens.

Il y a long temps
que je ne te vois pas
est toi que me manque
et n'est pas le froid.

Quoi que ce soit
je me souviens tu
et en face de mon doigt
je pense que j'ai la vu.

Je me manque de balader
pendant tout l'été
j'ai peur de perdre tu
mon coeur a rappelé.

As-tu me oublié?
Permets moi
ne m'arrête pas
pour la voir un autre fois.


* licença artística.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Um épico da coleta seletiva por Etapas.

Corria o ano de 2029. O planeta estava afogado no lixo quando J.R. Elinton meteu-se a morrer. Decrépito, entoava uma compleição taciturna e castigada, mas seus olhos iridescentes denunciavam, em meio a um obnóxio novo mundo de Hades, aquele que havia sido o último dos homens a ter habitado a superfície. O seu funeral estava um fracasso, apenas prestava o seu luto, de forma alheia, seu sobrinho K. O menino, aos píncaros de seus vinte anos era, agora, o mais velho ser humano em vida, primogênito da nova geração, fora o primeiro parto no Reduto.

Os olhos de J.R. Elinton permaneciam abertos e pareciam contemplar um jovial sol a patuscar com uma pirilâmpica lua na orla do mar, um esperançoso ensaio de tudo o que não resta daqueles que já não existem. No entanto, eles apenas repousavam, descansavam da vida que caçaram. Aqueles dois vórtices desapaixonados pela sina tinham visto, em 2009, como a recessão derrubara casas e casos em crise e como as catástrofes decorreram do betume e da besteira.Haviam olhado para o crepitante superaquecimento, a superprodução de lixo e de hiperpoluição, mas sem atinar às suas premeditáveis conseqüências. Haviam registrado cada medida proposta, desde o implante e a conseguinte rejeição de taxas para coleta de lixo, campanhas de reciclagem apoquentadas, até alguns acelerados experimentos, na jactanciosa esperança de que brincar de Natureza salvaria sua natureza. Haviam testemunhado o descaso que atolou, subitamente, as pessoas em desgraça e o mundo e caos. Mas, abriram-se apenas quando já era tarde demais.

Aquela, agora diáfana, dupla de olhos tinha despertado no ocaso, junto a tantas outras, e puderam somente lacrimejar em vão, assistindo às medidas desesperadas de governadores e cientistas propondo absurdas máquinas de compactação de lixo em larga escala, ou pílulas de hidratação que fomentavam a economia de água no organismo, incineradores portáteis, ou sondas espaciais de lixo. E, enquanto lacrimejavam, viram-se levados a redutos subterrâneos construídos pela ONU e viram morrer, em vinte anos, todos os ex-habitantes da superfície, incapazes de viver na ausência de vida.

Os olhos, antes de serem fechados, puderam então compreender que o paraíso existiu na Terra, mas só podia ser visto pelos que abriam os olhos, e que seja qual for, medida nenhuma podia ser proposta que poderia livrá-lo do inferno, senão o despertar de cada indivíduo.

[Cof cof, primeiro lugar no concurso do Etapa de redação, não é bonitinho? Quanto talento!]- (Lichas)

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Pejorativo.

Prefácio:
Progenitores, placenta.
Parto. Pessoa.
Percurso:
Padrão.
Padre, parque, papinha, presentes, proteção, pipa, piscina, palhaço... penates.
Palavra.
Palpite, palmatória, parede.Professor, profeta, parágrafo, pintura, poesia, prosa, palco, provas, perdas. Progressos.
Pêlos.
Puberdade, pulo, pináculo, primavera:
Pabulagem, pileque, pandemônio, pretensão, poder, praia, perdição, prazer, paladar, pegação, preservativos, paixão.
Parceria. Pactos, promessas, pudor(...?), proposta. Profundidade. Perfeição. Precioso..
Pindaíba -> Postura! Precaução, prudência. Profissão, projeto.
Peso: pluma, pizza, pança, pelanca, penar, penar, penar, paranóia. Psicose.
Problemas. Psicose.
Por quês. Psicose.
Política, palanque, propina, palermas, putos, pseudos. Psicose.
Pane.
...
Patologia. Pneumonia, paralisia, parasitose, paliativos.
Perecer:
Pêsames.
Putrefação...


Por Paula Possari

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Literatejo (atrasado) pro dia das bruxas!

Era uma vez três enforcados felizes.

Andavam entre devaneios oníricos e perdições espumantes. Lânguidos, alimentavam-se de cabeças de carecas, pois o cabelo era difícil de digerir, coçava o estômago e, muito constantemente, fazia-os engasgarem.

Viviam no esgoto, pois quando saíam às ruas eram apedrejados, assim como as mães do oriente médio que têm seus cérebros estourados em fragmentos singelos e macilentos por suas crianças, tudo por terem seduzido os maridos de outras. A diferença é que a culpa deles era serem feios e doentios, e por isso, muitas vezes voltavam com alguns pedaços a menos de orelha ou nariz.

Seus olhos esbranquiçados babavam a libido de mortos que não tinham com quem escoar seus impulsos, escoavam, então, mutilando-se e, muitas vezes por dia, jogavam-se de penhascos. Uma vez por semana sonhavam com zebrinhas e toda quinta-feira à tarde fingiam sorrir defronte postes e paredes pelas ruas da cidade, embora fossem repudiados à luz do dia, sentiam-se bem com a tradição. Embora houvessem discutido muito sobre os riscos que corriam, haviam decidido que era tudo legal demais para pararem com isso.

Toda terça feira à noite, encontravam-se na praça com toda sorte de malditos e punham-se a contar contos de terror regados de ópio e bebericagens exageradas.

Certo dia, um dos enforcados veio com uma história cabulosa. A história mais hediondamente peluda dentre todas do mundo inteiro, chamava-se:

O HOMEM DA PERNA COMPRIDA

“Eu morava na roça num muquifo enlatado com minha mainha, meu pai e as minhas três irmãs. Meu pai tinha o hábito saudável de beber bastante, chegar em casa e violar toda a família. Minhas irmãs adoravam, minha mãe gritava de prazer e eu, particularmente, não gostava, às vezes meus fundilhos sangravam meses a fio, no duro.

“ Certa nebulosa noite, saí para tomar um ar e vi, na orla da floresta, sem eira nem beira, um vulto murmurante. Cheguei perto, uma melancolia ambulante, ululava por entre o desgosto um homem à cavalo. O homem, à primeira vista, era normal, simpático até, se descontarmos a falta de orelhas e as duas jabuticabas escuras que substituíam os olhos. Não tinha cabelo e a boca encontrava-se remendada por algum tipo de linha e cola quente, não sei ao certo.

“No entanto, havia uma coisa que me incomodava naquele sujeito, uma particularidade estranha dele, era sua perna. Uma delas era proporcionalmente uma razão áurea maior que o dobro da outra, deveras peculiar, e enquanto ele cavalgava a perna arrastava no chão e ele grunhia. Deixava para trás apenas a camada de carne que nunca cicatrizava e um rastro de sangue que nunca coagulava. E caminhava sem rumo, arrastando sua perna comprida pra onde o seu querido cavalo o levasse, e arrastando ia, e era sua sina.


Fábio Andó Filho.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Estatelando na real

Não sei citar na literatura universal sequer um grande homem que tenha completado sua jornada sem enfrentar nenhum tipo de prova ou expiação. Não imagino sequer um pequeno homem assim. E, como todo aspirante a, simplesmente, homem, também tive de marchar por uma dessas provações existenciais.

A minha provação veio bem logo e assumiu o estranho formato de uma nimiedade cartesiana. Bem logo mesmo, mal sabia eu ler e escrever, nem ao menos andar ou falar, pior ainda, que o diga, entender.

Aos píncaros dos meus louros poucos meses de vida começava a pirilampear em mim aquela clássica natureza dogmática que desponta em qualquer ser vivo racional deste plano.

Sentado em meu cadeirão de bebê, na minha fleumática paidéia, tentava, gradativamente, entender as formas que discorriam nos meus sentidos, as formas que dançavam carrosselmente psicóticas perante os meus olhos, o fedor de devaneios que permeavam as minhas narinas e, sobretudo, toda a pacholagem que ululava nos meus ouvidos e reverberava na minha cabeça. Era tão chateante. Chegar ao mundo, cheio de expectativas e perceber que ainda não fazia parte dele. Tão deprimente a desgraçada decepção de desolamento social. Era chata mesmo, muito chata, a misantropia e a maldita segregação. Mais chata ainda era ser chateado pela galhofa das pessoas ao meu redor, que ardilosamente me subestimavam e me subjugavam à palhaçada pura. Era como ser piparoteado em minha virilidade a cada mimo e gracejo dos mendazes facínoras. Era sentir-me lânguido diante as minúcias tediosas e ser ridículo ao ser banhado de ninharias. Ser bebê era estupidamente humilhante. Ter que agüentar aquela fuzarquia farrista era dor pior que a felonia, era o mais desvairado e esquálido dos sentimentos pejorativos. Eu não agüentava. Para mim, tudo aquilo deveria explodir e perder-se no ocaso. Esse era o meu maior desejo, o ideal que me manteria de pé. Era minha maior vontade.

Muito me esforcei, então, para que aquilo tudo virasse poeira estelar, era hora do basta. Dediquei toda a minha voluntariedade, fixei-me ao péssimo preceito da Vontade de Schopenhauer, no fundamento da idéia platônica e fiquei ali, querendo. Com uma força de vontade cada vez maior, eu insistia em querer muito e a vontade chegava a ultrapassar uma escala industrial de infinito querer. E desejava em cada suspiro. Cada resquício de aspiração e anseio que não estivesse querendo era cruelmente repreendido e acoplado imediatamente à força de vontade. Mas nada parecia mudar, e a minha vontade se esgotava, esvaindo-se em cachoeiras metafísicas. E num último súbito de insistências, quis mais uma vez, exausto. Meu corpo enrijeceu-se, pois não agüentava mais tanta vontade. Assim, por uma tremenda quantidade supérflua de má sorte, deixei meu corpo derrubar-se do cadeirão, ficando no ar da mesma forma que os tijolos não ficam e, doravante, estatelando-se no chão da mesma maneira que os tijolos que não deveriam estar no ar estatelam-se.

Chega uma hora na vida que a gente se toca e deixa de ser besta.



Fábio.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

O passado é meu presente


"O passado é minha cicatriz

marca, estigma,
sombra delineada

pelo sol que se põe.

História

vivida, inventada
contada, falseada.

Fragmentos

de sonhos
derramados

numa ampulheta.

O passado

é meu presente
nele nada posso alterar

vírgula, ponto, exclamação.

Teimo em ser

presente.

Argonauta

em um oceano de memórias,
me atiro no mar

do imponderável.

Desejo

um encontro marcado

com o futuro

presente

imarginado,
imaginado

travesso,
buliçoso...

Tenho um encontro certo

Mesmo sabendo

que tudo o que é certo
é a inércia da morte.

Navego poeta,

navego,
pois viver não é preciso"

João Bosco Sousa

domingo, 5 de outubro de 2008

Indigente, descendente, tudo gente.

Indigente

Chuva, ou choro, de gotas, ou lágrimas, opacas, tristes. Deixam-me nenhuma flor. Menti, a única coisa que molha minha sepultura é o suor viscoso e mal cheiroso do coveiro, nenhum'alma sequer presta-me homenagens, nem mesmo os céus. A terra seca me cobre, um sol escaldante de meio-dia queima, arde, mas sinto um frio insuportável, o frio de ser eternamente só, e isso é só.

Descendente

Sol, calor, praia e paixão. Curto o meu luto no Havaí.

Gente

Gente quente e valente, brilho nitente e inconseqüente, indolente, mas iridescente, crente e descrente, sabida da mente e mente. Pra parente, ente, ainda mente, piamente, sempre descaradamente, lindamente. Do mundo, semente, inclemente, somente carente, um incandescente acidente de natureza indecente. É complacente, condescendente e benevolente, porém de forma irreverente, maleficamente, etnocentricamente e egocentricamente é, simplesmente, gente.


Vitor Aruth e Fábio.

Sem título

Caricaturas inexpressivas são tudo aquilo que me resta quando tento, em momentos de banzo, recordar-me de amigos íntimos ou de paixões enlouquecidas. Nunca o que imaginamos se concretiza, apenas nos alimentamos de ilusões, ou a imagem assim gerida é concreta, apenas sombras oscilantes, frágeis e passageiras se formam, deformam e disformam.
Muitos vivem em pensamento e, conseqüentemente, não vivem. Por que tanto esforço, Sempre me pergunto se isso não passa de uma necessidade, própria de nossa espécie, de segurança e, principalmente, de conforto. Viciamo-nos nessa maldita realidade ideal, perfeita, e nos perdemos de nossa própria realidade.


Vitor Aruth

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

O Homem

Porta escancarada, corpos caídos, nova pintura rubra na sala. Sangue que escorre e corroe a alma, que me banha, que me hidrata a pele, que me alimenta. Saio, muto, minha enorme envergadura espalha sombra, transmuto, deito.
Morro e desmorro e corro em pesadelo e discorro em devaneio. Diáfana imagem inexistente, reflete incandescente a melancolia complacente ao meu trajar irreverente. Ensaio a tristeza e o desespero e a falta de destreza e o desassossego d'alma que me mente a existência inexistente onde moro e que devoro.
Só, me faço só. Diante de realidade intermitente, porém sem marcas de tempo se faz perene, seria ainda maior o pesar de viver assim com outrem, me faço só. Escolho, entre tudo, nada, não suportaria o fardo de outr'alma suportar o fado de minh'alma. Por isso simplesmente os retorno à poeira, poeira à qual meu maior desejo é regressar, fazer parte das estrelas, minhas únicas companheiras. E assim vivo e não vivo.
Curto e não-curto esta curta eternidade maçante e instantânea de um hussardo sem causa, mas com conseqüência, numa seqüência de causas galantes e chatas de ínfimos prazeres magníficos e errados em pecados de insanidade.
Choro, grito, mas o silêncio mantém-se mórbido, nem mesmo posso ouvir o pulsar de meu coração, não pulsa. Porém gozo, como se me deleitasse de ilhargas, necrófilo, apenas observo em minhas tristes noites o ardor ígneo apaixonado dos casais jovens e posso ver após o orgasmo um momento de verdadeiro amor. Então penso, sou amaldiçoado pelo pensamento, um cão sujo, sarnento com chagas e vermes se aproxima, tenho inveja dele.
Ouço, mundo, e calo, mudo, ele não me pertence, eu sou uma serpente de paixão e de não-amor, sorte, empedernido em silêncio, quieto, pra não ter que falar, vivo, emudecido estático emporcalhado, choro, enlamecido, grito, em sinfonia minimalista, reverbero um prestíssimo, mas ninguém me ouve.
Amanhece, quero ver o sol, sentir o calor, sentir-me como todos, não sinto. Mas compreendo, não sou o único, não posso ser o único, pois no escuro somos todos iguais, e é no escuro, mesmo indistintos.


Fábio e Vitor Aruth

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Ius naturale

Em meio ao marulho e os marujos moleques do mar, um macambúzio mastro majestosamente me molestando ao longe, grito ao capitão, As azêmolas dessas marés mundanas se aproximam! Mantenham-se firmes, meus meninos, mesmo que me metam a morrer!
E seguindo este ímpeto foi que dilaceramos nossa primeira horda.
Em jarras jaziam juntas de ouro fulvo, com as quais nos banhávamos. Entre fúlgidas sintonias douradas bebericávamos e, ébrios de rum, dançávamos nossa tartárica psicose do sucesso de nossas primeiras degolações. E assim outorgamo-nos o mérito de Ba'al dos demônios, tormenta desse sorumbático universo.
Dobrando a esquina do vórtice de nosso destino imperou sobre nós a verdadeira tormenta, esta do último círculo do Inferno de Dante, e penetrando com nossa musa nas entranhas da névoa cega e do frio farpado um titã de gelo carcou nosso casco.
Soberbos que subjugamos as piores castas sucumbimos à suprema Gaia, sangrando em sina solferina sob o choro sibilante de Urano.

Vitor Aruth e Fábio.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Aspargos e Almíscar

Dois passarinhos autóctones gorjeavam concomitantemente aos uivos e ladros caninos das bestas em terra, dois substratos tão distintos, porém indistinguíveis ocorrido o ocaso. Um simples estalo de um galho das árvores pútridas seria suficiente para a esquizofrenia em cenário tão perverso e grotesco, não mais grotesco, entretanto, que suas criaturas híbridas disformes. Algumas delas choravam copiosamente enquanto outras mastigavam suas entranhas, talvez apenas pelo prazer, pois finda a análise desses espécimes poderia-se pressupor que se alimentassem incipientemente de terror.
No entanto, o mesmo poente traz a melancolia do fim de um dia fatigante, no qual os dois singelos serafins crepitam em louvor à sua simplicidade. E, minuciosamente indiferentes ao caos que se propagar, aconchegam-se em seu catártico emaranhado de louros, dantes o cume da vitória, doravante um ninho de amor.

Fábio e Vitor Aruth.
_

Mesmo em nosso mundo ainda podemos encontrar o amor.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

O Manifesto.

Distintos meninos
de instintos caninos.
Seres abrasivos,
bobos adesivos
presentes em nós.

Escuro, não obstante,
ledo me apetece.
Em obscuro instante
minh'alma arrefece
de forma feroz.

Uma chave antiga
no meu peito e leito,
a clave mitiga.
Tanto sem respeito
litiga uma noz.

Lascivo semblante
em nós operante.
Nocivo falante,
de voz um errante,
das idéias é foz.

É a criatividade
que muito vivida
se cria sem idade
de espontânea vinda
desponta na voz.

Fábio e Vitor Aruth.
_

Para os olhares mais atentos, o poema forma um pentagrama perfeito, cinco sílabas métricas, cinco estrofes e cinco versos em cada, com pontas que ligam-se externamente. O pentagrama é associado à força da terra, fogo, água e ar, coordenadas por uma outra força, que apresentamos como a força da criatividade. Este é o manifesto da criatividade. A criatividade é a habilidade do criador. Os rumos do universo são, caoticamente, escritos pela força da criatividade, a força de imaginar algo inimaginável. Motivados por esta entidade essencial no progresso e na evolução, elaboramos este manifesto.



A criatividade para o Wikipedia:
  • "o termo pensamento criativo tem duas características fundamentais, a saber: é autônomo e é dirigido para a produção de uma nova forma" (Suchman, 1981)
  • "criatividade é o processo que resulta em um produto novo, que é aceito como útil, e/ou satisfatório por um número significativo de pessoas em algum ponto no tempo" (Stein, 1974)
  • "criatividade representa a emergência de algo único e original" (Anderson, 1965)
  • "criatividade é o processo de tornar-se sensível a problemas, deficiências, lacunas no conhecimento, desarmonia; identificar a dificuldade, buscar soluções, formulando hipóteses a respeito das deficiências; testar e retestar estas hipóteses; e, finalmente, comunicar os resultados" (Torrance, 1965)
  • "um produto ou resposta serão julgados como criativos na extensão em que a) são novos e apropriados, úteis ou de valor para uma tarefa e b) a tarefa é heurística e não algorística" (Amabile, 1983)
  • "é o processo de mudança, de desenvolvimento, de evolução na organização da vida subjetiva" (Ghiselin 1952)
  • "manipulamos símbolos ou objetos externos para produzir um evento incomum para nós ou para nosso meio" (Flieger 1978)